Os ‘Mal Amados’ e a Casa do Pessimismo Português – Uma outra forma de viver o turismo em Portugal

O avô vendia na Feira da Ladra, onde por vezes Bruno Gomes assumia a responsabilidade da banca enquanto ele se ausentava para ir beber ‘minis’ com os amigos. A avó, por sua vez, cantava fado, o que para um miúdo que cresceu com esse ‘fado’ chegava a ser um tormento.

Naquela altura, o Fado ainda não era Património Cultural e Imaterial da Humanidade, Lisboa ainda não era dos turistas e apanhar o 28 era uma outra viagem aos Prazeres.

Fomos conhecer o Bruno, o maior pessimista com que nos cruzámos e o mais bem-disposto. Diz ser ‘Mal Amado’ e nós quisemos saber o que é isso dos ‘Mal Amados’.

O projeto nasceu em 2008 e era inicialmente formado por um grupo de jovens desempregados, que acreditava seriamente no lema: ‘Juntos conseguimos fazer mais’.

Mal Amados

10 anos depois, a Casa do Pessimismo Português, como se autointitulam, tem morada no mesmo local, o espaço de cowork do Lx Factory, em Lisboa.

Com uma diferença, aliás muitas, a principal: hoje todos estão empregados. Alguns têm empresas em nome próprio, outros formaram parcerias, outros ainda encontram-se em ambas as situações.

Na altura, sem trabalho e perspetiva de futuro, uniram esforços para à boa maneira portuguesa se desenrascarem. “Somos mal-amados por este país. Tivemos um primeiro-ministro que nos mandou emigrar e nós insurgimo-nos precisamente em relação a isso: ‘somos mal-amados, mas vamos ficar. Vamos dar a volta a isto, usando as ferramentas que estão à nossa disposição'”, conta Bruno Gomes, um dos mentores do grupo.

Na equipa dos ‘Mal Amados’ há designers, jornalistas, psicólogos, engenheiros, pessoas que há precisamente 10 anos “estavam pior do que estão agora”. “Durante estes anos fomos conseguindo encontrar projetos e caminhos que nos conduziram aqui”.

Inicialmente era um espaço partilhado por dois ‘Mal Amados’, depois foi crescendo. Atualmente são um grupo de 13 pessoas, num espaço multidisciplinar.

Alguns dos que em 2008 não tinham trabalho, hoje têm o seu negócio, na sua área especifica e onde anteriormente não tiveram oportunidade de ter. No entanto, apesar de mudarem de lado, no que diz respeito às estatísticas, continuam a estar ligados a esta corrente.

Apesar da variedade de projectos e empresas que aqui nasceram, algumas a título individual, existem também iniciativas que pertencem ao grupo. Como por exemplo, a marca de T-shirts ‘Mal Amados’, as grandes mensageiras desta filosofia.

Uma filosofia que tem por base o descrédito, realçando o pessimismo e tirando partido dele.“Adoro o pessimismo! Quando o assumimos pior não ficamos e o que vamos construir com base nesse negativismo, realmente só pode ser melhor. Coisas interessantes vêm à tona”, defende Bruno Gomes, 39 anos.

“A t-shirt sempre foi um meio incrível para passar mensagens, a história diz-nos isso. Eram as redes sociais de outros tempos”.

As mensagens das t-shirts são maioritariamente em inglês, mas também as há em português. “Não escondemos que a maior parte do nosso projeto tem por base comunicar para quem vem de fora”.

Algo que não é de agora, que vem desde os tempos da Feira da Ladra. “Foi realmente aí que começou”, e conta: “Passei muito tempo na Feira da Ladra, o meu avô tinha uma banquinha e eu ficava lá enquanto ele ia beber ‘minis’ com os amigos. Todas as bases de negócio que tenho são de lá, para o bem e para o mal. E os ‘Mal Amados’ acabam por ser uma expressão disso. A Feira da Ladra é uma escola de sensibilidade. Quando estamos frente-a-frente com o cliente ganhamos uma sensibilidade que nenhuma escola nos ensina. São ferramentas ganhas e adquiridas no dia-a-dia”.

Afirma que foi o negativismo que serviu de estrutura para que estas pessoas e projetos se desenvolvessem, porém, garante que nem todas as t-shirts inscrevem mensagens negativas. “Não queremos só apontar o dedo, queremos que a nossa crítica seja construtiva. A ideia é pegarmos em toda a energia negativa que temos e tentar fazer alguma coisa com isso, criar alguma coisa mais positiva – como se fez com o fado”.

Os seus trabalhos refletem isso. Estão expostos nas paredes da sala onde trabalham e estão ao dispor de todos. Quem quiser pode comprá-los. O quadro ‘Fuck Saudade’ e o Menino da Lágrima a dizer que é português, são exemplos disso.

Na prática como se processa essa transformação? Como é que isso se faz? “É assumir, olhar para dentro, para onde dói, que é aquilo que normalmente não se faz. Por o dedo na ferida e depois procurar respostas. No fundo os ‘Mal Amados’ é um diálogo que nós encetamos com todos os que entram aqui. A t-shirt que fazemos e vendemos são a abertura a um diálogo às pessoas que as compram, sejam elas portuguesas, inglesas, alemãs, austríacas, suecas… questões que também elas colocam na sua própria cultura e sociedade. E essa parte mais filosófica interessa-nos particularmente. E depois, no final, acabamos por fazer algum dinheiro com esse pessimismo, o que também é importante para nós. Através destas ideias mais originais e fora da caixa conseguimos comunicar e ter algum retorno”. 

Os ‘Mal Amados’ fazem ainda zines e posters, alguns desses trabalhos são assinados pelo Alfredo.

“O  Alfredo é o mais rápido a pegar num objeto e a transformá-lo. Tudo o que está à vista pode ser comprado. O Alfredo é uma das pessoas que trabalha aqui e assina parte destes trabalhos, mas #somostodosalfredo”.

As empresas e negócios que foram brotando, do Edíficio 1. Piso 4, Espaço 4.8 do Lx Factory, são na sua maioria direcionadas para o turista. Lá nasceram a Unofficial Ambassadors, da Marta, a Walking Tours – Get Lost Go Local, do Nuno, a Classic Lisboa Ride, do Miguel ou a We Hate Tourism Tours, da qual o Bruno também faz parte.

“Os portugueses sempre foram pessimistas e nós achamos que devemos aproveitar esse pessimismo”.

E tem corrido bem?

“Não! Não vamos ser ricos, mas temos uma rica vida no meio de todo o negativismo. Fazemos o que acreditamos e gostamos com o nosso pessimismo. Há uma pressão enorme na sociedade pela busca da felicidade. E nós somos um bocadinho ao contrário. Não sentimos essa pressão. Sabemos de antemão que vamos ter mais momentos difíceis do que fáceis”.

Em alguns momentos e alturas do ano, Bruno Gomes vai  para o estrangeiro trabalhar. É de lá que traz mais dinheiro para contribuir para o projeto. “Lá fora faço um bocadinho de tudo desde trabalhos corriqueiros a outros mais interessantes. Carregar caixas, lavar pratos num restaurante… gosto de fazer tudo, e isso dá-me um entendimento importante da vida”. Ainda que acredite na especialização garante que é  positivo cumprir vários papeis na sociedade. “É bom conhecer todas as realidades”.

Cresceu a ouvir Fado, a avó era fadista. “Chegou a uma altura da minha vida em que já não podia ouvir mais fado. Estava farto! Obviamente que por um lado fico contente pelo fado se ter tornado algo tão relevante internacionalmente. Não deixa de ser curioso, durante anos não se ouvia fado ou pelo menos muitas das pessoas que hoje ouvem não ouviam, mas agora por uma questão económica, patriótica o Fado é tudo para nós. E eu, agora, sinto necessidade de dizer, ‘calma amigos o fado também é uma seca!’. Durante anos foi amado por muitos, mas detestado por muitos outros”.

Vivem do Turismo, mas diz ter consciência de que este boom do turismo em Portugal não vai durar para sempre. “Se fosse um positivo diria que esta euforia iria durar até 2030, como sou um pessimista acredito que seja até 2020. O mundo está a mudar muito rapidamente. Dois anos é muito tempo. Uma coisa é certa, vai acabar! E para algumas pessoas vai ser bastante difícil. Para nós não, porque não esperamos nada.

Até aqui as coisas não foram fáceis, e ainda não são. Hoje em dia ainda temos de ser mais realistas porque estamos a caminhar para uma sociedade muito artificial. Que não é de todo a nossa realidade.

Mal Amados

Gostava que no futuro as crianças não deixassem de ser pessimistas para terem noção da realidade de uma forma natural e conseguir dar a volta por cima, construir algo”.

Um outro desafio que têm em mãos é precisamente ligado aos mais novos. Trabalham com miúdos do bairro da Cabrinha, 1.º de Maio… “Aproveitamos alguma da mobilidade que temos e trazemo-los para visitar Lisboa. Os miúdos dos subúrbios não conhecem Lisboa!”.

Defende que se não se trabalhar essa ponte, na ligação desses miúdos com a realidade da cidade, vai haver uma desconexão total entre aquilo que é a cidade de Lisboa e os seus habitantes. “Porque Lisboa tem cada vez menos habitantes”, justifica.

“Eu cresci a apanhar o elétrico 28, a jogar à bola na Bica, mas todas essas experiências vão deixar de acontecer. Temos uma cidade que está completamente desconectada com os seus cidadãos porque a maior parte das pessoas não vive nem experencia a cidade. A realidade desses miúdos é diferente daquilo que eles ouvem na televisão!”.

Os ‘Mal Amados’ não são um grupo fechado, diz. “Qualquer pessoa pode participar e tornar-se um ‘Mal Amado’. Aliás, cada pessoa que contribui e leva uma t-shirt também faz parte do grupo. É uma porta aberta para todos os que queiram entrar, pelo menos das 13h às 18h ou das 14h às 19h”.

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